ENTREVISTA COM MIHALY HIDASY

Mihaly Hidasi, na final do Estadual de Kart 2010, em dezembro último, recebeu troféu
especial das mãos de José Fardim, Presidente da Comissão Estadual de Kart do RJ
Depois de um bom tempo planejando uma entrevista com Mihaly Hidasy, uma das grandes referências do Automobilismo Brasileiro e também Internacional, a oportunidade surgiu, de repente, durante a cobertura da primeira etapa do Estadual 2011 de Kart, em Volta Redonda, RJ, no último dia 6 de Fevereiro.
Foi um prazer duplo. Primeiro por reencontrá-lo (eu não sabia que ele está morando na Cidade do Aço) e, depois, por poder entrevistá-lo, apesar do local não ser o mais adequado, pelo som estridente dos karts (música para os aficionados), a menos de 15 metros de onde estávamos. E não havia outro lugar disponível. E o que segue, abaixo, é mais um resumo da vida de quem, desde 1971 está envolvido com o esporte-motor, em especial, no Rio de Janeiro.
Mihaly Hidasy chegou ao Brasil com 18 para 19 anos. Aqui estabeleceu-se, trabalhou, casou-de com Eva, também húngara, envolveu-se com o automobilismo, teve dois filhos - Claúdia , 44, e Leonardo , 34. Tem três netos: Gabriel de 16 e Mariana de 11 anos, filhos de Cláudia e Pedrinho de 1 ano e 3 meses, filho do Leonardo.. Sempre morando no Rio, Mihaly e sua esposa mudaram-se, recentemente, para Volta Redonda, onde já morava sua filha Cláudia.
É muito pouco, resumir, em apenas algumas linhas, uma vida rica de histórias e episódios de alguém com um circulo de amigos e admiradores tão grande e com um currículo tão rico no automobilismo. Hoje é apenas um "aperitivo" para outras entrevistas e bate-papos que espero poder publicar, em breve, no velocidadeRio.com, inclusive com a presença e depoimentos de alguns de seus amigos e companheiros de jornada, no automobilismo, para ouvir os casos e experiências nas pistas e fora delas, também.
Em mais um tributo a Mihaly, foi instituída, neste ano, a Copa Mihaly Hidasy, que premiará os vencedores da primeira fase do Campeonato Estadual de Kart 2011, promovido pela FAERJ - Federação de Automobilismo do Estado do Rio de Janeiro.
velocidadeRio.com - Mihaly, desde quando você está no Brasil?
Mihaly Hidasy – Eu cheguei em 1957. Dezessete de Julho de 1957.
vRio – Pouco depois da revolução na Hungria, não é?
Mihaly - Positivo. A revolução foi em ´56, eu saí para a Áustria e depois peguei visto para chegar no Brasil. E consegui para chegar em Julho de 1957.
vRio – Quando você veio para o Brasil você trabalhava no automobilísmo?
Mihaly – Negativo. Na primeira semana, comecei a trabalhar na loja de um amigo nosso (da família), que era tio de um primo meu, que morava no Brasil e... pra começar a aprender a língua portuguesa, porque eu não entendia nada em português: zero, zero, zero.
vRio – Parece que os húngaros têm uma certa facilidade para falar português e outras línguas porque o húngaro é uma língua muito complicada.
Mihaly – É bastante complicada, sim. Mas os húngaros têm, realmente,uma sensibilidade maior do que, talvez (gente de) outras origens. Mas também tem que ver que teve um clube húngaro, no Rio de Janeiro, onde tinha muitas pessoas húngaras, já vindas, depois da 2ª guerra e, um deles, tio meu, também, organizou um curso para todos os húngaros que chegaram, nessa época, em 1957, para aprenderem com mais facilidade o português.
vRio – Pelo que entendi, você veio direto para o Rio de Janeiro.
Mihaly – Viemos direto para o Rio de Janeiro e fomos recebidos por uma pessoa que você deve ter conhecido, o Janos Lengel. Um grande amigo. Eu era grande amigo de um irmão dele, na Hungria, que era juiz de futebol. E o Janos conseguiu nos receber no Cais do Porto e nos tirar do navio pra gente não ir para a Ilha das Flores, onde íamos ter que ficar um mês de quarentena (Mihaly veio para o Brasil em companhia de sua irmã Judit).
vRio – Esse é um cápitulo que muita gente não conhece, a respeito dos imigrantes que chegavam ao Brasil, naquela época. Hoje é, obviamente, diferente.
Mihaly – É, hoje é diferente. São outros tempos, são outros refugiados. Eu fui refugiado, pode-se dizer. Hoje quem faz imigração já vem com a papelada toda pronta pra poder ficar no Brasil e trabalhar.
vRio – E como você começou a se interessar pelo automobilismo?
Mihaly – Isso é uma coisa interessante. Eu comecei a frequentar um clube de kart, não era nem um clube de kart, (era) uma pista de kart, no final do Recreio dos Bandeirantes, onde tinha um camping clube, onde foi montada uma pista de kart e uma vez fui lá com minha esposa, olhar e brincar e, aí, conheci o pessoal. Um dia eu assistia uma prova onde aconteceu uma rodada, o piloto parou a dois metros de mim, eu vi que muita gente tinha empurrado karts e eu fui lá pra empurrar, só que nessa categoria não se podia empurrar e, então, foi desclassificado o piloto, por minha culpa.
vRio – Essa foi sua “entrada oficial” no automobilismo (risos)!
Mihaly – Essa foi minha “entrada oficial” no kart,né? E no kart, eu gostei, tinha um amigo que corria de kart, queria patrocínio e eu trabalhava com produtos especiais, lubrificantes, e eu comecei a patrociná-lo. Conseguimos ganhar o segundo lugar no campeonato, no ano seguinte, e, depois, ele parou de correr e eu parei, também, de patrocinar kart. Mas o pessoal da organização, da FAERJ, me pediu pra ajudar fazendo sinalização. Então, eu gostei, realmente e comecei a fazer sinalização junto com o pessoal e depois, com o tempo passando, eu fui diretor de prova, fui comissário desportivo … Na época, acho que 1973, quando começou o autódromo (re-inauguração) a funcionar no Rio de Janeiro, me convidaram. O Amadeu Girão me convidou pra trabalhar com automobilismo, também. Daí começei no automobilismo, subindo a escada, subindo a escada. Fui chefe de box, comissário de box, diretor adjunto de prova, diretor de prova.
vRio – Como foi sua entrada para a Formula 1?
Mihaly - Quando chegou a Formula 1, eu fui chamado. Mario Pati como diretor de prova, fui mantido no meu posto de comissário e chefe de box, e nos dois anos seguintes foi como diretor-adjunto e, depois, em 1976, como diretor de prova, quando Amadeu Girão se retirou da Formula 1.
vRio – Por quantos anos você foi diretor de provas, da Formula 1, no Brasil?
Mihaly – No Brasil fui diretor de prova durante 18 anos, no Rio e em São Paulo.
vRio – Você que participou e tem acompanhado a Formula 1 durante todos esses anos, como a vê hoje em dia, comparada à época em que você trabalhava e era diretor de provas no Brasil?
Mihaly – Hoje em dia a Formula 1 depende muito do carro. Naturalmente, naquela época, dependia muito do carro, também, mas eu acho que o piloto era mais requisitado para ganhar uma prova. Mudanças tecnológicas tudo isso melhorou e facilitou a “subida” de muitas equipes. Nos últimos tempos surgiram equipes que eram de 2ª linha e, hoje, estão entre as de 1ª linha, também. Agora, como direção de prova, hoje é completamente diferente. Hoje eu não conseguiria fazer mais a Formula 1.
vRio – Por que?
Mihaly – Porque tudo é mecânico, tudo é técnico, tudo é eletrônico. Antigamente o diretor de prova nacional era o diretor de prova (da Formula 1, em cada local). Ele fazia a organização, fazia a ordem de sinalização, com o chefe de pista … Hoje, não. Hoje tem um diretor de competição, um diretor de provas, que é o Charlie Whiting. Ele é que dá as ordens. Ou aperta os botões para aparecer a sinalização nos painéis dos carros. Quer dizer, hoje o diretor de prova simplesmente fica atrás do Charlie Whiting e espera receber alguma ordem pra fazer, o que poucas vezes acontece durante a prova.
vRio – Tenho conversado com muitas pessoas ligadas a várias categorias do automobilismo e eu tenho sentido que o entusiasmo com a F1 vem diminuindo, inclusive com muita gente se dedicando mais a outras categorias, com mais entusiasmo, achando que vale mais a pena, tem mais competitividade. E o que você acha disso?
Mihaly – Veja, competitividade, sim. A Formula 1 é muito dinheiro. Com dinheiro se consegue na F1 coisas que em outras categorias não se pode fazer, por falta de recursos, mas, também, o regulamento permite mais coisas na F1, do que em outras categorias. E os pilotos são melhores, mas, como eu disse, hoje o carro conta muito pra você ganhar uma corrida. Se o piloto não tem carro, não ganha corrida. Claro, o carro tem que ter um bom piloto.
vRio – Dos pilotos com quem você conviveu, qual foi que lhe impressionou mais?
Mihaly – Bom, como piloto ou como pessoa?
vRio – Como piloto.
Mihaly – Como piloto não tem dúvida que o Ayrton Senna era o melhor piloto daquela época. Me impressionou muito, também, o Prost. O Nigel Mansel, e outros. Todos os pilotos eram bons mas, esses eram os melhores.
vRio – E como pessoas, afáveis, fáceis de se lidar?
Mihaly – Olha, eu me dei com todos os pilotos muito bem. Nunca tive problema com nenhum. Tivemos, naturalmente, punições. Algumas coisas até engraçadas. Uma vez, o Ayrton Senna passou pela bandeira quadriculada duas vezes (em um treino) e eu chamei ele à torre e pedi pra ele me apresentar um atestado médico, de um oftalmologista, dizendo que ele tinha problemas de visão. E, realmente, ele prontamente me atendeu e, no dia seguinte, ele me trouxe um atestado. Porque , senão, ele podia ser punido. Hoje, é punição direta, não sei quantos mil dólares, se o piloto,por exemplo, passar duas vezes pela bandeira quadriculada no final de treino.
VRio – Qual é a sua lembrança mais agradável, sua melhor lembrança daquele tempo de Formula 1?
Mihaly – Foi quando Ayrton Senna venceu em Interlagos, em 1991, e chovia no final da prova.
Siga o link: http://www.youtube.com/watch?v=NXr5ad7aQgU
vRio – A mais curiosa?
Mihaly – A mais curiosa foi quando cheguei (em Budapest) para um Grande Prêmio da Hungria. Eu estava dando uma volta, de carro, na pista e, de repente, alguém bateu na traseira do meu carro. Eu saí do carro, pra saber por que tinham batido e era o Ayrton Senna, que estava no carro, junto com o manager dele, em um Trabant. Aliás, nem um Trabant, (era) uma Lada. Dái eu perguntei: “O que é isso, Ayrton?”. “Rapaz, eu não consegui outro carro, em Budapest”, ele disse. Eu disse: ”Em Budapest você não vai conseguir alugar carro nenhum. Você tinha que ter alugado um carro bom em outro lugar, e vindo pra Budapest.” Essa foi uma coisa curiosa.
vRio – Como você vê o automobilismo brasileiro, atualmente?
Mihaly – Bom, a automobilismo brasileiro cresceu muito. Cresceu em categorias, cresceu em carros, cresceu em (número de) pilotos. A mais eficiente, eu creio que seja a Stock Car. Atualmente a Stock tem 3 categorias correndo (Stock, Copa Montana e Mini Challenge). Eu estou fora há dois anos da Stock Car (organização). Tem essa categoria do Massa (o Racing Festival) que ele patrocina, que é uma novidade. E algumas (categorias) sumiram. O Campeonato de Marcas, por exemplo, não tem mais. Estão anunciando que vai ter Campeonato de Marcas, mas não sei que marcas vão participar, até agora não foi definido.
VRio – Você acha que esse momento é melhor, em relação à época em que você era atuante, em que você dirigia provas, etc?
Mihaly – Olha eu não posso dizer assim … muitas diferenças. Acho que tínhamos mais categorias. Tínhamos a Formula Ford, Marcas, Fiat, a Stock Car, Formula Chevrolet,e outras categorias, como a Divisão 3.
VRio – E sobre o automobilismo do Rio de Janeiro, que vem passando toda essa crise do autódromo de Jacarepaguá? Acaba autódromo, vai ter novo autódromo, não vai ter. Qual a sua opinião?
Mihaly – A única coisa que eu tenho certeza é que vai acabar o autódromo). Já foi anunciado, já tem planos, o que vai ser (construído) no lugar. Agora, se vai ter ou não, um autódromo novo, não posso dizer nem que sim ou nem que não. Não sei.
Vrio – Mesmo sem um projeto definitivo, você acha que a localização desse novo autódromo, em Deodoro, vai ser boa, levando em conta a facilidade de acesso, ou você acha que essa mudança vai ser prejudicial?
Mihaly – Acesso, tudo bem, nós temos a Av. Brasil. Agora, acontece um acidente, para tudo. Final de semana, talvez seja mais fácil, mas não acho um excelente lugar. Longe da cidade (centro), longe de hotéis, não sei se os pilotos vão gostar, uma área daquela fora do Rio de Janeiro (centro/zona sul). Eu acho que não é um lugar ideal.
Vrio – Infelizmente, não há áreas disponíveis no Rio de Janeiro, devido ao preço muito alto. Seria muito difícil encontrar outra área de tamanho igual.
Mihaly – É, o que seria certo era não fechar o autódromo, não destruir o autódromo, não destuir o kartódromo, não destruir a pista da Formula Indy, e não destruir o autódromo e ficar com a pista com a metade do comprimento. Acho que foi uma bobagem, sinceramente.
Vrio – Bem, agora você está fora do automobilismo, a sua última atuação, mesmo, foi na Stock, há dois anos atrás como você disse. Mas eu estou encontrando você aqui no Kartódromo de Volta Redonda e eu sei que você vai ser um consultor aqui, mesmo que informal, ainda mais agora, que você é morador de Volta Redonda.
Mihaly – Eu sou muito grato ao pessoal daqui, que me acolheu, de braços abertos. E a gente tem no sangue o”vírus” do automobilismo. Não tem como “matar esse vírus”. E estou aqui, venho às corridas, ainda mais com os campeonatos estaduais, e o próprio indoor e outdoor que, agora, o indoor corre outdoor, etc. E encontro os amigos - pilotos, filhos e netos de pilotos que corriam na minha época. É muito bom. Estou muito satisfeito.
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Não se pode esquecer que Mihaly atuou, também, brilhantemente, no automobilismo húngaro, também na Formula 1, por 10 anos, e que teve uma participação importante na organização do Ungaroring, autódromo de Budapest, palco de algumas mais sensacionais atuações de Nelson Piquet e Ayrton Senna e mais recentemente da Rubens Barrichello e Felipe.
" Depois de 10 anos eu deixei o automobilismo na Hungria também, diz Mihaly.No vigésimo aniversário do autódromo recebi um convite dos organizadores para ir a Hungria para receber um troféu, pela colaboração que dei lá, durante a construção da pista, na elaboração da sinalização, e pelos 10 anos em que atuei – 2 anos como diretor de prova e oito anos como comissário desportivo. Fiquei muito agradecido pela homenagem pela minha atuação durante os dez anos de GP da Hungria."
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Comentários
Sem dúvida, um ícone.
Alguém muito querido e respeitado aqui, e lá fora.
Bela entrevista, repito.
O Mihaly é realmente um pessoa muito querida e respeitada no meio automobilístico e foi ótimo poder entrevistá-lo.
Abraço
Miguel é gente boa de trabalhar, sempre atento e conselheiro, sabe conduzir com rara autoridade que tem sem demonstrar.
E, salvo se a memória me trai, ele tinha uns carrinhos de autorama muito bem preparados que corriam na pista de Botafogo.
É muito bom ver que o Mihaly continua a ser lembrado por toda a sua atuação no automobilismo! Torço para que tenhamos outros "Miguéis". Quanto aos carrinhos de autorama, aí já não sei dizer. Mas vou perguntar a ele.
Abraço
E bom encontar com pessoas que eram pilotos e agora etão trazendo os filhos ou netos para correr de Kart .
Abraço a todos.
Mihaly Hidasy
É um amigo de sempre, e referencia para todos nós. Recentemente, em agosto de 2009, foi Diretor Técnico do Campeonato Mundial de Kart Indoor, em Macaé, onde deixou sua marca: não deixou as provas começarem sem ambulancia, e logo na primeira prova houve um acidente...Graças a Deus sem gravidade.
Foi como sempre para nõs, a nossa referencia técnica e ética.
Parabéns Miguel!
Chico Inglês
Em uma época em que técnica e ética nem sempre andam juntas, em especial, no esporte, é muito bom ter, próximo, alguém como o Mihaly, respeitado e querido por todos!
Abraço
Abração pra você e pra ele!
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