ENTREVISTA COM O PILOTO NICOLAS COSTA

Nicolas Costa
O velocidadeRio.com dá prosseguimento às suas entrevistas com personalidades do automobilismo carioca e fluminense trazendo, desta vez, uma das grandes promessas do esporte.
Anteriormente, conversamos com uma figura exponencial do automobilismo, que é Jorge Claudio Schuback, e, agora trazemos o jovem Nicolas Costa, que completa 19 anos no próximo dia 14 de Novembro e já se credencia na novíssima Formula Future, que tem o piloto Felipe Massa como seu inspirador e padrinho.
À uma etapa do término do campeonato da Formula Future, integrante do Racing Festival, Nicolas Costa é o líder da competição, 7 pontos à frente de João Jardim e Francisco Alfaya, duas outras jovens esperanças do esporte e, também, aspirantes ao título. Nicolas é carioca e, como tal, não poderíamos deixar de trazer suas impressões sobre suas experiências e seus objetivos como piloto profissional, carreira para a qual se prepara desde os 9 anos de idade.
Encontramo-nos no Top Kart, na Barra da Tijuca onde conversamos. Um bom papo, com um jovem carioca, simpático e sorridente. Bem humorado, mas com um foco definido em seu futuro que, pelo que temos visto, é bastante promissor.

Nicolas Costa, vence em Brasília e assume a ponta do Campeonato foto Carsten Horst / MF2
velocidadeRio.com - Nicolas fale um pouco sobre você. Quando e onde você nasceu?
Nicolas Costa - Nasci em 14 de Novembro de 1991. Sou de Botafogo, Rio, e passei minha vida inteira aqui, só saindo, mesmo, em 2006, quando foi minha primeira corrida em São Paulo. Daí para frente eu comecei a viajar constantemente para São Paulo, praticamente todo mês, voltando sempre. Em 2009 eu comecei a ter experiências internacionais em corridas. Fui para a Inglaterra. Fiz alguns teste na Formula Ford, na Inglaterra. Fiz, também, uma corrida como convidado, sem marcar pontos. No final do ano, acabei indo para os Estados Unidos, pra fazer um campeonato chamado Skip Barber Shootout. É um campeonato em que eles selecionam jovens de todas as partes do mundo e, desses 5, são selecionados para correr como bolsistas, nos Estados Unidos. Eu fui um desses e acabei fazendo 2 corridas por eles em 2010, que foi a minha estreia no automobilismo (N.R. Antes de 2009, apenas no kart). Já na minha primeira corrida eu fui para o pódio. Foi muito bom pra mim. Eu larguei meio de trás e consegui chegar no pelotão da frente, e terminei no pódio. Na minha segunda corrida eu fui o pole-position mas primeira volta acabou que eu fui espremido e, bom ..., ocorreu um acidente. Essas coisas de corrida acontecem. Depois disso eu soube dessa oportunidade da Future e voltei pro Brasil pra correr atrás de recursos pra correr esse campeonato.
N.R. A essa altura, eu tomei um fôlego pra continuar as perguntas. Vocês já notaram que o moço é mesmo rápido nas respostas!
vRio - Continuando a falar de você. Quantos anos você tinha quando começou a correr?
Nicolas - A minha primeira corrida eu tinha nove anos, quase dez. Eu ganhei o kart no meu aniversário e essa corrida foi no final de 2001, se não me engano em novembro ou dezembro de 2001. Foi de Cadete, essa corrida. Em 2002 nós vendemos o Cadete e compramos um Júnior Menor e eu participei do campeonato Carioca. Pela primeira vez. E fui Campeão Carioca. No ano seguinte (2003), eu fui bi-campeão. Em 2004 eu sofri um acidente, um pouco sério, e tive que ficar afastado por um tempo. Nisso eu comecei a andar de kart Indoor. Fiquei dois anos andando de kart Indoor e fiz vários torneios em diversos estados. Ganhei diversos títulos, acho que mais de dez. Em 2006 eu fiz duas corridas de Biland em São Paulo campeonato Paulista de Biland, que era uma categoria que eles tinham - não existe mais. Em 2007 eu fui (para São Paulo) pra fazer o campeonato completo. Pela primeira vez no Paulista Light, de Sprinter B, que seria o Graduados B junto com a Novatos. Terminei em quarto no campeonato, seis pontos atrás do líder, que é pouca coisa. Tive problemas em 5 provas - quebrei em 5 provas. Em todas as outras eu fui pro pódio ou ganhei as corridas. Então, foi um campeonato muito proveitoso, aprendi muito nesse primeiro ano. No ano seguinte (2008). No ano seguinte eu fui correr na Granja Vianna, campeonato Paulista, fui campeão.
vRio - De Indoor ? (caramba, consegui falar ...)
Nicolas - Não, não. Isso já de kart profissional. Em 2006 eu abandonei o Indoor. Em 2007 já comecei a andar no kart profissional. O Paulista Light; foi de (motor) dois tempos, motor PCR, na Granja Vianna. Fui campeão (2008) e, no ano seguinte, 2009, fui bi-campeão, na categoria Stock 125. Era uma categoria em que eu fui correr porque muitas estrelas do automobilismo participavam: Felipe Massa, Lucas di Grassi, Danilo Dirani, Tony Kanaan, Rubinho Barrichello, muita gente da Stock Car e muitos pilotos famosos de kart, também. Também fui campeão nessa categoria, fui recorde de poli-positions na categoria e venci mais provas, também. Venci 4 provas. E também fui vice-campeão brasileiro, nesse ano. Foi meu primeiro campeonato brasileiro, depois de 8 anos de kart.

Nicolas, preparando-se para o seu 1° treino oficial na F.Future,
na estreia nacional da categoria no Rio, em 29/30 de Maio de 2010
vRio - Como você concilia essa sua vida de piloto com o estudo?
Nicolas - Eh ... bem complicado. Sempre me esforcei bastante, mas nunca fui bom aluno. Não porque eu "farreasse" muito mais, mas porque eu sentia dificuldade mesmo e, com o kart isso só aumentava. Conforme as competições iam aumentando de ritmo a escola ia ficando um pouco pra baixo e pra voltar ao nível dos outros alunos eu precisava estudar muito. Quando eu não estava em competições chegou ao ponto de eu estudar de 06:00 h da manhã até 09:30 h da noite, o que aconteceu durante uma semana seguida, em um ano e eu me esforçava muito pra "passar de ano" e continuar correndo de kart. Porque se eu começasse a ir muito mal na escola, realmente, eu pararia de andar de kart. Nunca repeti um ano, graças a Deus, sempre nesse ritmo forte. Consegui passar e, em um ano e meio - dois anos, eu completei o segundo grau.
vRio - Como é que foi o suporte que você recebeu da família. Em primeiro lugar, você tem irmãos?
Nicolas - Tenho. Tenho um irmão mais velho (que) tem 25 anos. O suporte da minha família sempre foi muito grande. Sempre me apoiaram em tudo que eu fiz e o kart foi a coisa em que eles mais me apoiaram. A gente sempre fez todos os campeonatos que a gente pode fazer. Quando (só) dava pra fazer uma corrida, a gente fazia uma corrida, quando dava pra fazer o campeonato inteiro, a gente fazia o campeonato inteiro. A gente nunca teve uma condição muito forte no automobilismo por falta de recursos. Felizmente houve melhora nas condições, o suficiente para que meu pai me mantivesse no automobilismo. Dentro do possível, minha família sempre me deu o maior apoio. Quando não tinha muito recurso minha avó, minha tia, a família se juntava pra me "botar" pra correr. Então eu sempre procurei aproveitar muito essa oportunidade que minha família me deu e, agora, acho que a gente está colhendo o fruto disso. As coisas estão começando a dar certo na minha carreira e, se tudo der certo, se Deus quiser, a partir do ano que vem meus pais não vão precisar mais se preocupar, (nem) precisar "bancar" as minhas corridas.

Nicolas no seu Fiat Future n° 99 rasga a reta dos boxes em Jacarepaguá, em 29/05/2010
vRio - E o seu irmão? Também é envolvido com o automobilismo?
Nicolas - Meu irmão gostava quando era criança. Depois, como nessa época não tinha "dinheiro nenhum" ele cortou esse sonho de meu irmão. "Graças a Deus" eu nasci 7 anos mais tarde e só comecei a correr aos nove, então meu pai já tinha um pouco mais de verba pra me bancar. Meu irmão acabou seguindo outro caminho. Meu irmão é DJ. Um DJ muito bem sucedido no ramo dele, é bem conhecido, "tá ganhando um bom dinheiro", tá com renda própria, então, foi até o melhor caminho pra ele.
vRio - O nome dele?
Nicolas - Se chama Vitor. Vitor Costa.
vRio - Seu pai é Ivan Costa. E sua mãe?
Nicolas - Valéria.
vRio - Dentro de alguns dias, 14 de Novembro, você completará 19 anos. Você aos 19 anos seguiu um caminho um pouco diferente de alguns pilotos brasileiros, que tiveram condição (financeira) ou foram com a cara e a coragem. Foram pra correr na Formula 3 e "outras formulas", fora do Brasil. Essa chance que você está tendo na Future, como você pode compara-la ao que aconteceu com outros pilotos?
Nicolas - Eu acho que tem casos e casos. As oportunidades que eu tive sempre foram baseadas na condição que minha família tinha, pra me poder bancar, por isso eu nunca fui andar na Europa. Até uns dois anos atrás eu desconsiderava totalmente a Europa porque, chegar lá, até você ter um "olheiro", até mostrar resultados, você teria que desembolsar muito dinheiro. E minha família não tinha a menor condição de fazer isso. Até por isso eu fui para os Estados Unidos, correr na Skip Barber, uma categoria muito acessível. Então, é uma categoria em que você pode treinar bastante, tem muitas corridas durante o ano e não é cara. Ainda mais com o "Shootout" em que eu ganhei a "bolsa", pra correr lá "de graça", o que já ajudou muito. Por isso nunca andei de Formula 3 , etc. São categorias muito caras; chegam até 900 mil reais, um milhão de dólares. É muito dinheiro. Um dinheiro que a gente não tem. Nem que se vendesse todo o patrimônio de minha família, não teria como bancar uma temporada. Então, eu acho essa oportunidade da Fiat (a Future) é muito interessante, por isso. Você pode ir pra Europa sendo bancado por eles. Se você mostrar um bom desempenho aqui no Brasil. É uma categoria que não tem o custo tão alto. Então deu pra gente bancar uma parte. A gente tem um patrocinador também. Até por isso a gente ´tá correndo e se você for um piloto que realmente tenha um diferencial e seja bom o suficiente pra ganhar o campeonato você vai correr lá fora. Então esse é o grande atrativo da Future.
vRio - Apenas o primeiro colocado vai pra "escola da Ferrari" ou o segundo, também?
Nicolas - Não, quem dera! Se fosse assim, eu ´tava mais relaxado. Mas é só o primeiro colocado mesmo. O segundo e o terceiro ganham teste na Formula 3 europeia, se não me engano, mas uma temporada completa é muito mais interessante que um teste. Até porque se você for o primeiro colocado no campeonato, você passa ter a Ferrari por trás de você. É um nome muito forte. Você tem mais facilidades de conseguir patrocínios, por esse nome por trás de você.

Nicolas no Kartódromo Indoor Top Kart, na Barra da Tijuca, Rio
vRio - Até porque tem o nome do Felipe Massa envolvido, um piloto totalmente ligado à Fiat, à Ferrari e ainda tem o Racing Festival. Essa temporada, para o que vencer, esse estágio; você automaticamente fará uma temporada na Formula Abarth?
Nicolas - Sim. A partir do momento que você ganha o campeonato, automaticamente "ganha" a temporada na Formula Abarth. Não importa quão mal você vá, lá, você vai correr a temporada completa. Claro que se você for mal você não vai renovar o contrato. O contrato é de um ano com a Ferrari, então pra renovar o contrato tem que mostrar resultado. É isso.
vRio - Como você se sente com essa possibilidade? Sei que você tem lá a sua "sombra", que é o João Jardim. Mesmo assim, como você se sente?
Nicolas - Ah, é um sonho pra mim. Um sonho que está chegando cada vez mais perto de se tornar uma realidade. Como eu disse, há dois anos atrás eu não imaginava que poderia ir para a Europa, porque (então) eu não tinha possibilidade nenhuma. Então, dois anos depois, poder correr na Europa, em uma temporada completa, em uma equipe boa, bem infraestruturada, com nomes tão fortes quanto a Ferrari, a família Massa e a Fiat, por trás de você, é um sonho imenso se tornando realidade.
vRio - A partir do momento em que você ganhe o campeonato da Future, e estou torcendo para isso, afinal, você é carioca, faça a temporada de Formula Abarth, você acha que fará aquele caminho dos que querem chegar a Formula 1, ou seja, passar pelas Formula 3, pela GP2, enfim, seguir até o topo a F1?
Nicolas - Eu acho que a Future já encaminha para isso. Indo pra Abarth você está indo nessa direção. Então, Turismo não é o caminho. Se você anda de Formula Abarth não tem a menor chance de andar de Turismo
vRio - É como um divisor. A partir daí você decide o seu caminho, é isso?
Nicolas - Exatamente. São duas coisas completamente diferentes. Se você quiser seguir o caminho do Turismo , você vai, por exemplo, fazer um WTCC, categorias de base antes do WTCC, um BTCC, talvez uma Stock Car, a nova Montana. Não ir pra Europa andar de Formula. A Formula lidera só para uma direção que é a Formula 1.
vRio - Como você avalia, atualmente, a Formula 1?
Nicolas - A Formula 1 acho que está melhorando. Se você for ver há 5, 6 anos atrás, você tinha a supremacia só de um piloto, não era tão emocionante. Acho que a Formula 1 está ficando mais emocionante. Hoje o campeonato está muito competitivo, ´tá super aberto, já trocou de liderança muitas vezes, então, eu acho que está ficando cada vez mais emocionante.
vRio - A Future é um carro que herdou uma tecnologia muito moderna, com soluções mecânicas e aerodinâmicas que faz com que ele se pareça um mini Formula 1. Você acha, então que esse é o carro ideal para colocar você nessa trilha, nesse caminho pra F1? Afinal é uma carro que pra quem sai do kart, praticamente "veste " o Future como um adaptação que me parece muito boa. Qual é a sua opinião a respeito?
Nicolas - É o Future é uma carro de fácil adaptação, acho que o carro ideal pra "garotada" que sai do kart e quer aprender a guiar. Não é um carro tão difícil de se pilotar como no caso da F3 que é um carro muito mais forte (potente) ou de um Formula São Paulo, que apesar de ser um carro mais "fraco" é um carro bem rústico, então é bem mais difícil de se guiar, tem um câmbio manual, de 5 marchas, em H, e isso dificulta muito. O Future tem um câmbio sequencial de 5 marchas, com blocante, então você não precisa tirar o pé do acelerador pra trocar de marcha, mais fácil pra reduzir, então é um carro mais fácil pra se aprender. Também, o Future não tem nada a ver com a Ferira nem com a Fita. O chassi foi construído na França, por uma empresa chamada Signatech, o motor é Fiat, mas o chassi nada tem a ver com a Fiat ou a Ferrari.
vRio - É verdade, mas me parece que há soluções aerodinâmicas e certamente mecânicas que são muito semlhantes as da Formula 1.
Nicolas - Sem dúvida. O carro foi baseado em um carro da Formula 1, só que não com tantos detalhes (ou tecnologia). Ele tem aquele básico das asas, assentos, mas não com tantos detalhes aerodinâmicos, até porque o carro não precisaria porque não é tão forte (potente).
vRio - Nicolas, fala pra nós a respeito do campeonato da Future, propriamente dito. Da sua performance, das suas dificuldades e do que você está conseguindo (fazer) no carro.
Nicolas - Eu acho que está sendo muito positivo. Ter essas dificuldades agora, mesmo sendo líder do campeonato, por um certo lado é positivo. Acho que você tem que ver o lado positivo. Você acaba aprendendo com essas dificuldades que você tem. É legal você ganhar um campeonato sem ter tido qualquer problema, 35 pontos à frente. Se Deus quiser, se tudo der certo, agora em Santa Cruz do Sul, eu vou ser campeão e esses problemas não vão ter alterado em nada o resultado do campeonato, só vão ter rendido um aprendizado melhor, eu acho. Então eu vejo esse problemas, até agora, como um fato positivo. Você acaba aprendendo com isso, apesar de nem sempre o erro ser seu ou do seu equipamento, você acaba aprendendo como evitar. -"O que eu poderia ter feito pra evitar isso?" . Então eu também vejo isso de maneira positiva.
vRio - Qual o problema mais comum na Formula Future?
Nicolas - Olha, o problema mais comum, acho que comigo não aconteceu muito, mas é se envolver com alguém na corrida. Porque a Formula Future tem muitos pilotos (todos) jovens e os pilotos jovens são mais ... atirados! Então, apesar do grid não estar grande é fácil você se envolver com alguém, porque você vai muito afoito querendo passar alguém ou tenta defender muito agressivamente a posição, então, eu acho que tem que ter a "cabeça certa" pra terminar as corridas. De repente você abre mão de ganhar uma posição mas você termina a corrida. "De repente" você passaria o cara ou você bateria com ele. Então acho que esse é o principal problema na Future.
vRio - Certo, mas falando do carro em si, existe algum problema que ocorra com todos os pilotos? Tipo pneus, algum problema nos freios, ou isso não ocorre com frequência?
Nicolas - Não, tem sim. Acho que um problema, unanimemente é com a embreagem. A embreagem é muito fina, de disco único, então é muito fácil de quebrar. Acho que deveriam botar uma embreagem mais robusta no carro. Eu já tive problemas sérios duas vezes, com a embreagem. E não só eu. Vários pilotos já tiveram problemas com embreagem e todo mundo troca a embreagem em toda corrida. E é um custo extra, a gente tem de pagar. Justamente porque a embreagem é muito frágil. Então acho que se precisar rever alguma coisa no conceito do carro, seria a embreagem.
vRio - Os problemas que você teve no Rio, por exemplo, foram devidos à embreagem?
Nicolas - Foram. Um dos problemas que eu tive no Rio foi devido à embreagem. Foi na largada da primeira bateria, eu de "pole" caí pra oitavo. Acho que colou a embreagem, alguma coisa assim. Na segunda bateria eu tive problemas, não larguei muito bem, mas por culpa minha mesmo. Já em Curitiba, eu tive esse mesmo problema, fiquei parado por uns trinta segundos e só consegui sair, mesmo, empurrado. Outros pilotos tiveram problemas com embreagem. A Appezzato, já teve 2 vezes, o Jonathan, também e outros também tiveram. Então esse é o problema mais comum. Eles devem trocar por uma embreagem de disco duplo, que dure mais.
vRio - Eu realmente não tenho conhecimento total do equipamento. Os freios, obviamente a disco, são ABS?
Nicolas - Não. Eu acho que nenhum carro de Formula tem freios ABS. Acho que nunca teve. Acho que se pusessem freios ABS nos carros (de Formula) seria andar pra trás. Os pilotos não aprenderiam muito. Não tanto, pelo menos. Você chega lá fora o carro não tem ABS. Você "senta" o pé no freio e vai travar tudo.
vRio - Ou seja você tem nas mãos um equipamento que é, em escala menor, o que você vai encontrar em categorias mais avançadas, no futuro.
Nicolas - Exatamente. O chassis do Future comporta, facilmente, um motor de 200 - 220 HP, apesar de que o nosso tenha 150 HP. Então eu acho que todo mundo já vai se acostumando a ter um chassis bom, desse bem desenvolvido pra quando chegar na Europa a única diferença seria o motor. Quando você entrar no carro você já vai estar mais acostumado aquele meio-ambiente.
vRio - Que qualidade do carro você mais gosta?
Nicolas - Acho que é a boa construção do carro. O carro é muito bem construído. Todos os engates são feitos de forma muito suave. As trocas de marcha, o encaixe do volante. Até porque é um carro muito novo. É um carro que não está avariado pelo tempo. Então acho que é isso, Os engates de marcha dele são muito "finos": fácil de trocar de marcha, fácil de reduzir. Isso eu acho legal. É um carro com que você não precisa se preocupar.
vRio - Até porque o câmbio sequencial facilita muito isso, não é?
Nicolas - Facilita, mas se você for pegar outros carros, não é tão simples. Andei em um Formula Renault, que é um carro bem mais antigo, acho que era um carro 2002, e era muito complicado o câmbio sequencial dele, acho que até mais complicado do que o H (mecânico). Porque se você reduzisse devagar demais entrava três marchas pra baixo e ou você estourava o motor ou você rodava. Se reduzisse rápido demais a marcha não entrava. Então você tinha um tempo certo. Também pra puxar a marcha pra cima, tinha que puxar da maneira certa, senão a marcha não entrava. Então eu acho que nesse aspecto o Future se destaca dos outros carros.
vRio - O que você pode dizer para os seus colegas, jovens, que estão ainda no kart, mas que já estão olhando para vocês como um exemplo, que já estão na Future. O que você pode dizer para animá-los a pensar na Future como uma real escola para os que querem seguir carreira?
Nicolas - Acho que a molecada que está hoje, no kart, precisa fazer isso com seriedade, mais como um esporte em que você quer seguir carreira, você quer se profissionalizar. E aproveitar muito esse tempo no kart, que eles têm, porque realmente esse é o tempo mais importante que se tem para aprender. Depois disso fica muito difícil. Os anos vão passando e você vai ficando "velho". Fica mais difícil de aprender. Então pegar esse tempo que têm no kart e procurar aprender. "bota a mão no kart", mexe você mesmo, procura, experimenta, você acaba aprendendo muito fazendo você mesmo, (mais) do que falar com o seu preparador para ele fazer ou esperar os outros fazerem.
vRio - Estou vendo que você gosta de mecânica, também.
Nicolas - Eu gosto. Nos Estados Unidos eu andei de kart também e fiz corrida em que eu era o meu mecânico. Eu e mais um amigo, nós dois mexíamos no kart. A gente desmontava, montava, limpava, regulava. Um negócio que, em alguma hora você vai usar. Em alguma hora você vai precisar. E se, nessa hora, você não tiver esse conhecimento, você pode ficar pra trás. Pode perder um campeonato, pode perder uma oportunidade, porque você não se comprometeu na hora que você deveria.
vRio - Como você avalia o nível do kart brasileiro, atualmente?
Nicolas - Acho que está muito bom. A gente tem muitos bons pilotos hoje em dia. Talvez alguns pilotos que precisem de uma oportunidade pra andar lá fora, conhecer o kartismo de lá, mas, aqui dentro (do Brasil) correm muito bem. Tem muitos pilotos que têm "braço", têm vontade, o suficiente pra andar junto com qualquer piloto de fora. Pilotos que se você pusesse pra andar na Europa, tudo bem, em primeira instância não iriam andar igual mas assim que pegassem o "jeito" do kart lá, iriam "andar junto". Então eu acho que nosso s pilotos são muito bons, sempre foram muito bons e não é agora que isso vai mudar.
vRio - Fale, rapidamente, sobre sua recente viagem à Europa.
Nicolas - Na verdade, essa viagem à Europa foi muito corrida. Um dia antes eu não sabia se ia ou não embarcar. Acabei indo pra Monza (Itália). Cheguei lá num sábado e vim embora na segunda-feira. Gravamos sábado e domingo, com uma equipe da Globo. Conheci os paddocks de Monza, conheci Monza, conheci várias equipes de lá, algumas eu até já conhecia, pilotos, o pessoal da Ferrari, e até dei algumas voltas de carro, em Monza. Acabei conhecendo a pista o que foi muito legal pra mim. O ponto alto da viagem foi ter dado essas voltas em Monza. Acho que foi uma viagem muito proveitosa. Ir lá pra conhecer a infraestrutura, como funciona, como guiam os pilotos, foi muito legal. Valeu muito a pena!
N.R. Essas gravações, na Itália, destinam-se aos programas Esporte Espetacular, da TV Globo, aos domingos, e ao "Linha de Chegada" da SporTV, com Reginaldo Leme. Dias e horários a serem anunciados.
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Comentários
Olho no garoto! Vamos ouvir falar muito dele em futuro bem próximo. Levo fé ...
Abraço
Abss
Concordo com você. O Nicolas tem muito futuro. Torço pra que ele vença o Campeonato da Future, o que poderá ser o início de uma grande carreira internacional.
Abraço
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